quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Henrique

Eu nem sabia. Mas o fato é que tenho um escritor em casa. Fui pego de surpresa, ele deixou como papel de parede em nosso computador. Não resisti. Publico o texto do Henrique, filho querido, e espero que apreciem tanto quanto um pai apaixonado. Se clicar sobre a imagem, fica bem mais fácil para ler.



quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Imagine um casal

Imagine se você bebesse demais numa festa de casamento de uma ex-namorada de adolescência. Agora, imagine se justamente nessa festa fosse o dia de conhecer a mulher de sua vida. Feche os olhos e tente imaginar. E se você for mulher, faça esse exercício, não imaginando o contrário, como se estivesse no casamento de um ex-namorado de adolescência, mas tentando encontrar o homem de sua vida na festa de casamento da irmã de uma amiga.

Mas me permita voltar aos meus amigos: imaginou? Três (ou mais, tá bom!) doses de uísques (doses de casamento de japonesa, meu chapa!!!), e aquela mulher, aquela mesma que você observou tão cuidadosamente durante a celebração da igreja, e agora ela na sua frente, com aquele vestido preto, cabelos ondulados e compridos, linda, linda, linda. Quase um arrependimento batendo pela alta dosagem etílica (não fosse o fato do superego estar completamente embriagado).

Imagine-se chegando em sua amiga e pedindo informações sobre aquela moça, de vestido preto, tá vendo? E ela gritasse: Regina, meu amigo quer te conhecer!!! E imagine se você fosse tímido...
Imagine: a moça me deixa em casa . Quer me dar seu telefone, imagine. Alguém tem papel e caneta? Nós também não tínhamos. E me dá seu nome completo. Regina Melchior. Imediatamente, lembrei-me da dica dos especialistas em memorização, pensei no Belchior e disse para mim mesmo que seria impossível esquecer e que encontro na lista telefônica, é claro.

Imagine a ressaca. A casa cheia de amigos para comemorar a festa de quinze anos de sua sobrinha. Imagine a vontade de rever a moça. Eu totalmente apaixonado. Ela, a espera ansiosa pelo tocar do telefone. Sabia que tinha de lembrar o nome do cantor. Procurei. De A a Z, mas só me lembrava do Fagner. Então foi um tal de agora tenho certeza, lembrei, claro, é Bagner, não...é Lagner, ou será Zagner...e nada. Imagine isso...

Agora imagine: seis da tarde, seu amigo pega o violão, põe um acorde de sol maior, se apruma, e, sem saber de nada, atira: “Foi por medo de avião...”. É pra beijar um amigo desse ou não???

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Quem me vê e não me viu.

"Não, meu coração não é maior que o mundo. É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores. Por isso gosto tanto de me contar. " (Carlos Drummond de Andrade)

No começo foi de brincadeira. Ou talvez nunca tenha sido de brincadeira, não estou certo. Mas a verdade é que um dia, sozinho em casa, resolvi conhecer os efeitos que a maconha teria sobre mim. Tossia como se estivesse engasgado com o mundo, mas insisti. Nunca fumara nada, e estava finalmente quebrando tabus, era assim que pensava. Os colegas se deram por satisfeitos, até que enfim, a gente pensava que você era "careta". Assim como tantos, comecei a chamar os que não fumavam de caretas e passei a frequentar um mundo de não-caretas, de muito loucos, que faziam o que bem queriam. Não tardou muito para querer fazer coisas bem piores, usar drogas mais pesadas. Bebia muito, cheirava todas...e a vida transcorria como sempre, eu pensava.
Só bem mais tarde percebi o quanto a vida passou mais rápida, e o quanto afundara nesse famoso poço sem fundo. Descobri, então, se tratar de um tudo posso sem fundo, de um fundo onde nada posso, um fundo no poço, um poder que levou-me para o fundo, mas olhando apenas para o raso da vida. Desprezava essa vida e desprezado por todos os olhares, andava pela rua a procura de mais droga, em busca de mais prazer incessante. (E tu, por onde andavas que não me encontravas, que não me querias encontrar? Por que demoraste tanto em saber de mim, em me estender tua vida para que a minha fosse retirada do fundo do oceano poluido?) Nem sei dizer quanto tempo, nem sei dizer quantos horrores.
O que sei, meus amigos, é que sou passageiro do trem que quase descarrilhou, mas que voltei. Sou mensageiro do mundo que vive a margem, do qual ninguém quer ouvir, mas consegui atravessar o portal que nos separa, e ao fazê-lo, felizmente não pude mais voltar para aquela dimensão. Sou enviado dos céus, algumas vezes, para tentar atrair mais gente para essa nossa dimensão, fazer descer do trem que se espatifará, mais cedo ou mais tarde. Sou tradutor de tantas palavras que alguns possuídos não conseguem entender, ou de pedidos que esses mesmos fazem ao nosso mundo. Sou quem precisa estar atento, a todo momento, para não se esquecer do que foi, do que é, e do que pode vir a ser. Devir, devir, devir. Algumas vezes, ilusões. Outras, invenções. A maioria, amor imenso pela vida.

"O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas." (Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Meu Pai

Rabiscos insensatos.
Remendos de sentimentos.
Tudo...tudo...tudo...reticências...


Como uma colcha de retalhos que precisa ser descosturada, desmontada, para que possa ter outra cara, outro jeito. Quem sabe, outra função. Confusões que não se fundem, nem temperam o molho da vida concedendo um sabor mais doce. Pânico na periferia. De minha cidade. Do meu mundo. Pânico no centro de meu universo.



Era tarde quando eles chegaram. Trouxeram notícias novas, mas não melhores do que as que esperávamos. O telefone tocara na madrugada e, ao atender, a voz não queria contar, pensou, repensou, escolhendo as palavras, escondendo os sentimentos. Do outro lado, ninguém queria ouvir, ninguém quereria me contar. Falaram para eu ligar, que a notícia, quem amava me daria. Pensei em não fazê-lo, não, eu não, não queria ouvir, não queria acreditar, a vida tão breve, o amor tão profundo, ele que não se desse ao luxo de me abandonar, não agora, que meu filho apenas aprendera a chamá-lo vovô, que eu finalmente largara o vício que me destruía, justamente quando resolvera finalmente me tornar adulto, que não fizesse isso, gritei, gritei, mas quando ouvi, súbito, foi como despencar de uma escada, a mais alta que houvesse, foi como se me tirassem um membro deixando ali a sensação da presença, foi como se o mundo não fizesse mais sentido algum, e até agora, reconstruindo, recomeçando, te procurando dentro de mim mesmo, para sobrepujar a saudade que insiste em pingar de meus olhos.



Amor sem fim.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Falando sério

Penso, algumas vezes, nos motivos que levam muitas pessoas a não aceitarem o diferente. Acostumam-se de tal forma ao igual, ao conhecido, ao estabelecido que, ao se depararem com aquilo que não é igual a alguma coisa que conheçam, de tanto estranhamento, preferem não se aproximar. O mais engraçado, se é que isso tem alguma graça, é o fato de, na maioria das vezes, se definirem como pessoas sem preconceito. Pergunte a alguém na rua sobre preconceitos: assim, de pronto, estou certo que quase a totalidade se dirá totalmente contra. Converse com ela, conviva e espere. Mais tempo, menos tempo você o verá rindo de alguém por alguma diferença, seja física, intelectual, ou então o fará fazendo algum comentário que ridiculariza o desigual.

E qual será o motivo que leva a esse tipo de comportamento? Sabemos da existência de padrões físicos, intelectuais, e tantos outros que são inventados e celebrados pela mídia. Sabemos ainda quanto custa ser exceção a esses padrões. Essa disseminação da cultura do belo estereotipado, esse ranço que obstrui o desenvolvimento das relações que aceitam as diferenças, ou até mesmo a expectativa dos pais em relação a seus filhos de que todos serão bem sucedidos, ricos, e que não terão e nem podem ter nunca, jamais, nenhuma dificuldade em suas vidas contribuem com esse cenário. Ainda os motivos econômicos, capitalistas mesmo, que excluem terminantemente de seus quadros necessários todos os que não possam gerar renda e nem consumo que, evidentemente, colabora substancialmente com essa situação.

No entanto, apesar de conhecer todos esses argumentos e alguns outros que não caberiam perder o meu e nem o seu tempo discutindo aqui, não me satisfaço. Continuo me perguntando: se de fato queremos ter uma sociedade mais justa, mais humana - no sentido primordial da palavra, aquilo que pertence ao ser humano – todos esses “motivos” já existiram tempo suficiente para se tornarem obsoletos, ultrapassados, por que é que afinal toda essa linda gente insiste em achar esquisito, feio, ou sei lá o que, tudo que é apenas diferente.

Até aqui, nada de novo, eu sei. E nem espere nada de novo daqui para baixo também. Porque isso tudo são inquietações para as quais não espero respostas. Quero apenas continuar insistindo para que tudo que seja diferente encontre espaço nessa sociedade do igual. Mas, repare. Existe algo ainda pior. Inventam saídas para tornar as diferenças mais palatáveis para si mesmos. Então é um tal de dizer que esses são anjos, aqueles coitados, outros super-heróis e assim por diante. É de deixar zonza qualquer criatura que tenha um mínimo de cuidado em aceitar alternativas, outros caminhos.
Óbvio e desnecessário salientear que não é dessa forma, a partir desse ponto de vista que justificam suas ações. Quase sempre espalham as boas intenções, até visitam algumas escolas especiais, fazem doação de final de ano, enfim, se vê de tudo um pouco. É verdade, porém, que quase sempre alegam, por exemplo, não poderem incluir quem está excluído da escola, do shopping, da internet, ou do que quer que seja, por despreparo técnico, quando é perceptível o despreparo para a aceitação. É preciso gritar isso. Os professores não estão apenas despreparados para ensinar, as lojas não estão despreparadas para vender, o hospital não está apenas despreparado para atender. São as pessoas, os iguais, os comuns, são todos esses que não estão preparados para viver com o diferente. É essa mentalidade que precisamos mudar. É essa realidade que precisamos descontruir no nosso dia-a-dia.


quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Conto em rima

Foi de repente. É verdade que ele já a convidara antes, mas ela sempre insistia em dizer não. De forma que prometera inúmeras vezes não mais repetir o convite, ela que se dane, quer saber, vou é ficar na minha. Não que tivesse ainda qualquer esperança. Aliás, desde muito nem mais acreditava nessa palavra, esperança, eu, nem pensar. De modo que foi mesmo no relance, um piscar, e quando menos esperava, lá vem ela perguntar se podia ir com ele visitar algumas amigas, na cidade dele, fim de semana, algum tempo para nos conhecermos melhor. Não se empolgou muito. Passar o final de semana com as amigas, não comigo, isso sim. Mas resolveu ceder, quem sabe agora, vamos ver. E não foi que ela quis passear com ele, sábado a tarde, tempo nublado? E não foi que deixou que ele se mostrasse, se abrisse?
E caminharam, tanto que se esqueceram do cansaço, tudo tão calmo. E o tempo parou por aquelas horas, nada havia no mundo que não aquele momento, aqueles minutos. E ninguém acreditaria se dissesse, mas não foi que choveu, e a chuva molhou aquela moça, o que a deixou tão diferente de todo dia. Ele aproveitou, chegou mais perto, timidez quase vencida, o suor escorrendo com a chuva, o corpo todo reagindo com a alma, era tudo o queria, tanto tempo já fazia. Ela bem que olhava para ele mesmo como que pedindo, e aquele olhar, será que está só me iludindo, mas não era só receio, tanta gente pelo meio, tanta dor no coração, e disse não, e nem tentou.
Olha só que covardia! Foi-se embora, e noutro dia, sem pensar em quem feria, disse a ele que queria, entretanto, não devia, porque a outro pertencia.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Conto ou não conto

Podia não ter significado absolutamente nada. Era apenas uma tarde ensolarada como tantas outras, final de aula, ônibus atrasado, quase nenhum dinheiro no bolso, na carteira, no banco, nada de novo, nada, só aquela vontade de rever aquela moça, aquela face, sorriso, cabelo. Ponto de ônibus, gente conhecida, todos amigos amigas colegas. Tudo igual. Quem diria que ela se sentaria ao seu lado? Quem diria que ela perguntaria: puxa, porque você tá tão estranho? E ele? Responderia? Se calaria? Respondeu. Apaixonado, sim, mas por quem, não falo. Ela, delicadeza que dava amor, não perguntou, não quis saber. Só disse que boba aquela que não queria. Se ela, quereria. A palavra veio na boca, o coração pulsou tão forte que deu vontade de gritar, o calor o fazia suar, corou, sentio enjôo - embora se perguntasse o que era aquele aperto no seu estômago - fingiu não ter entendido, medo medo medo, pavor, mediu as palavras, como falaria, chorou - por dentro, embora as lágrimas insistissem em mostrar o choro - mas coragem não teve para contar.